No último dia 15 de janeiro, o Governo do Estado do Ceará publicou um decreto com novas orientações para o combate à Covid-19 e à Influenza, devido à alta de casos registrada ultimamente. Entre as várias determinações, que vão desde a redução da capacidade em eventos esportivos ao adiamento das aulas de crianças com até 11 anos de idade, está a obrigatoriedade da utilização de máscaras específicas por profissionais de algumas áreas, como saúde e educação.

A piora da situação epidemiológica tem como uma de suas protagonistas a nova variante do coronavírus, a Ômicron, classificada como variante de preocupação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda em 2021, e caracterizada como uma das mais transmissíveis até o momento. No Ceará, o decreto entrou em vigor no dia 24 de janeiro, e coloca em evidência os diversos modelos de máscaras, item que já se tornou parte da rotina dos brasileiros, mas que ainda gera questionamentos.

Importante ressaltar que as máscaras tem como objetivo principal impedir a saída de gotículas contaminadas com o vírus, retardando, assim, a sua propagação. Porém, em determinados ambientes, alguns tipos apresentam uma melhor funcionalidade e eficácia do que outros, como é o caso das N95, PFF2 e equivalentes, conhecidas também como respiradores particulados ou máscaras de filtragem especializadas.

Keny Colares, médico infectologista e professor da Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, explica o porquê da recomendação do governo, especialmente durante o atual momento da pandemia: “elas [as máscaras N95 e PFF2] têm sido reservadas inicialmente para o ambiente hospitalar, para locais onde são feitos procedimentos que espalham muito o vírus no ar. Mas, já tem sido mostrado que, em algumas situações, isso pode acontecer fora do hospital, especialmente quando você tem muitas pessoas dentro de um ambiente fechado. Se não houver uma ventilação adequada, o vírus pode ficar no ar de uma forma mais espalhada”.

Nesse contexto, o docente afirma que as máscaras cirúrgicas e as de pano não garantem uma proteção adequada para quem se encontra nesses ambientes, e deixa claro que, nessas situações, os indivíduos se beneficiarão ao utilizarem os respiradores particulados, desde que saibam utilizá-los da maneira adequada.


Keny Colares, médico infectologista e professor da Unifor (foto: Ares Soares)

Funcionamento das máscaras N95 e PFF2

Feitas com material especial que possui uma alta capacidade de filtração, esses modelos garantem uma melhor vedação, impedindo a saída do ar pelas bordas, garantindo que ele passe pela máscara. Assim, elas retém gotículas que podem ser emitidas durante a fala, tosse ou espirro, e também protege os usuários contra os aerossóis (partículas menores que gotículas).

Porém, o médico lembra que, para um nível de eficácia da máscara satisfatório, é necessário prestar atenção no ajuste, na filtração e no conforto, assim, o indivíduo consegue usá-la corretamente pelo tempo necessário. “Elas [as máscaras] têm uma capacidade de filtrar o ar, que praticamente não deixa passar nada, desde que ela esteja sendo bem utilizada. Então, elas têm uma capacidade maior de evitar que o vírus entre na respiração da pessoa“, pontua Colares.

Esses modelos têm um custo um pouco mais elevado do que as cirúrgicas ou de pano, e podem gerar um certo desconforto para aqueles que não estão acostumados. Os respiradores particulados podem ser encontrados tanto na internet quanto em farmácias e lojas de construção.


Máscaras do tipo N95 possuem alta capacidade de filtração (Foto: Getty Images)

Uso correto do equipamento

É importante ressaltar que, independente do modelo, a máscara deve sempre estar posicionada na metade do nariz e abaixo do queixo, cobrindo o nariz e a boca. Essa é a forma correta de utilização, já que, bem ajustada ao rosto, ela impede a saída e entrada de ar pelas laterais. As máscaras tipo N95, PFF2 e equivalente podem ser reutilizadas, mas o seu tempo de uso é variável e depende do fabricante. De acordo com o infectologista, a informação sobre esse período pode ser encontrada, muitas vezes, na própria embalagem da máscara.

“Muitas são sete dias, duas semanas, isso é variável. Existem recomendações que deixem pelo menos três dias essa máscara em repouso. Ela pode ficar dentro de um recipiente, como um envelope fechado, seco, guardado, ou, se a pessoa tiver um local específico, ficar pendurada durante três dias, e a pessoa, no dia seguinte, utiliza outra máscara. Então, o indivíduo pode, muitas vezes, passar vários dias utilizando três máscaras, desde que ele faça isso com cuidado”, explica o infectologista.

Entretanto, o professor reforça a necessidade de utilizar esses modelos corretamente, para assegurar o alto nível de eficácia e a proteção buscada pelos usuários. Caso usadas de maneira equivocada, essas máscaras podem chegar a proteger menos do que outros tipos, pois ainda que outros modelos garantem uma menor proteção, se a pessoa consegue utilizá-los de forma adequada, eles serão mais efetivos.

O que dizem as entidades

Ainda em janeiro, o Centro de Controle e Prevenção de Doença (CDC) dos Estados Unidos atualizou o seu guia para enfrentamento da Covid-19, e deixou claro a contínua utilização de máscaras pela população em geral. Porém, de acordo com a entidade, os modelos que fornecem um maior nível de proteção são os respiradores particulares (N95 e PFF2), especialmente os modelos que possuem elásticos que prendem atrás da cabeça.

Autoridades ao redor do mundo estão seguindo esses direcionamentos e sugerindo que, se possível, as pessoas optem pelo uso dessas máscaras mais robustas, como forma de conter a propagação do vírus. Até o momento, a OMS recomenda o uso dessas máscaras para profissionais da saúde que estão em contato direto com pacientes com Covid-19 ou com suspeita de infecção.

“Essas são recomendações que estão saindo e sendo renovadas o tempo todo, mas, de uma forma geral, a gente precisa expandir, ou pelo menos dar opção às pessoas que estão fora do ambiente do hospital para que elas possam também utilizar esses modelos, já que hoje eles estão um pouco mais disponíveis e um pouco mais baratos”, afirma o docente.

A pandemia ainda não acabou

Ainda que uma das preocupações atuais seja a variante Ômicron, o infectologista Keny Colares explica que essa diferente capacidade de transmissão em ambientes fechados com baixa ventilação e ambientes abertos não é uma exclusividade das novas variantes. Porém, com essas mutabilidades recentes mais transmissíveis, a utilização de máscaras mais eficientes se faz ainda mais necessária.

“As máscaras hoje são, junto com a vacina, as principais ferramentas que temos para superarmos essa pandemia. O tempo está mostrando que, pelo menos por enquanto, não existe sinal de que esteja acabando. A gente torce que acabe, mas se ficarmos, a cada onda que aparece, achando que a pandemia passou, a gente deixa de continuar preparando preparando os ambientes, preparando o sistema de saúde, preparando a cabeça das pessoas para uma convivência mais prolongada, e toda onda nova que chega parece que estamos recebendo a primeira”, destaca Colares.

Colares finaliza com um apelo que mistura cuidado e preocupação: “a pandemia não acabou, e é possível que ela não acabe de uma hora pra outra, mas sim que vá acabando aos poucos, com ondas que sobem e descem, e a gente precisa se preparar para enfrentá-la e para conviver com ela [a pandemia] durante um período talvez maior. As duas principais armas que temos são a vacinação e o uso adequado de máscaras, e nesse sentido, ampliar para a população essa discussão sobre as máscaras é fundamental para que ela aprenda a se proteger cada vez melhor”.