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Uma nova frente de pesquisa na medicina veterinária está despertando a atenção de cientistas e tutores de gatos: o uso da rapamicina, um medicamento que atua sobre uma via celular ligada ao crescimento, ao metabolismo e ao envelhecimento.
A substância já vem sendo investigada em diferentes espécies por seu possível efeito sobre o chamado healthspan, ou seja, o período da vida em que o animal permanece saudável. Em gatos, porém, os pesquisadores ainda precisam descobrir se esses efeitos realmente conseguem aumentar a expectativa de vida.
O que os cientistas estão investigando?
A rapamicina bloqueia parcialmente a atividade da proteína mTOR, uma via que participa da regulação do crescimento e do metabolismo celular. A hipótese dos pesquisadores é que a modulação dessa via possa influenciar processos relacionados ao envelhecimento, incluindo a manutenção das células e a autofagia — mecanismo pelo qual o organismo elimina componentes celulares danificados.
A pesquisa ganhou força depois de estudos mostrarem resultados promissores em gatos com cardiomiopatia hipertrófica (HCM), uma doença cardíaca comum entre os felinos.
Em um estudo clínico com 43 gatos, publicado no Journal of Veterinary Internal Medicine, o uso semanal de rapamicina de liberação retardada durante seis meses foi associado a uma menor espessura máxima da parede do ventrículo esquerdo nos animais que receberam a dose mais baixa, em comparação com o grupo placebo. Os pesquisadores consideraram o tratamento bem tolerado naquele estudo, mas ressaltaram que são necessários novos trabalhos.
Isso significa que os gatos poderão viver mais?
Ainda não é possível afirmar.
Esse é justamente um dos pontos mais importantes da pesquisa. Os estudos realizados até agora mostram efeitos sobre determinadas doenças e processos relacionados ao envelhecimento, mas não demonstraram que a rapamicina aumenta a expectativa de vida dos gatos. Uma revisão recente da literatura destaca que ainda não existem estudos que comprovem aumento global de longevidade ou do período de vida saudável em felinos tratados com a substância.
Além dos estudos cardíacos, pesquisadores também estão investigando a utilização da rapamicina em outras condições, incluindo doença renal crônica em gatos.
Novos estudos reforçam o interesse
Em abril de 2026, pesquisadores publicaram na revista Scientific Reports um estudo sobre os efeitos de uma formulação de rapamicina de liberação retardada nas plaquetas de gatos.
Os animais receberam uma dose baixa do medicamento uma vez por semana durante quatro semanas. Os pesquisadores observaram alterações em alguns marcadores relacionados à ativação e ao comportamento das plaquetas, além de efeitos considerados potencialmente protetores em determinadas características celulares.
Os resultados ajudam a ampliar o conhecimento sobre como o medicamento pode atuar no organismo felino, mas não representam uma prova de que o tratamento prolongará a vida dos animais.
Um possível novo capítulo na medicina veterinária
A rapamicina já recebeu aprovação condicional nos Estados Unidos para uma indicação específica relacionada à cardiomiopatia hipertrófica subclínica em gatos, mostrando que a pesquisa deixou de ser apenas uma hipótese experimental e passou a chegar à prática veterinária em situações determinadas.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que o medicamento pode apresentar efeitos adversos e que seu uso deve ser acompanhado por veterinários. Estudos anteriores registraram, por exemplo, alterações relacionadas à glicose em alguns animais tratados.
A grande pergunta que permanece é se, além de ajudar a controlar determinadas doenças associadas ao envelhecimento, a intervenção poderá prolongar de fato os anos de vida saudável dos gatos.
Por enquanto, a resposta ainda está sendo construída pela ciência. Mas os resultados obtidos até aqui colocam a rapamicina entre as estratégias mais interessantes em investigação para compreender — e potencialmente modificar — o envelhecimento dos felinos.
Foto: magnific