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Tecnologia desenvolvida pela UFC transforma pele do peixe, antes descartada pela indústria, em biomaterial para tratamento de queimaduras e feridas; unidade será instalada em Jaguaribara e receberá investimento inicial de R$ 52 milhões
O Ceará está prestes a transformar uma pesquisa que nasceu nos laboratórios da Universidade Federal do Ceará (UFC) em uma indústria de alcance internacional. O município de Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, receberá a primeira fábrica do mundo voltada ao processamento em larga escala da pele de tilápia para uso médico, segundo informações divulgadas pelo Governo do Ceará e pelo setor responsável pelo projeto.
A unidade será dedicada à produção de curativos biológicos feitos a partir de pele de tilápia liofilizada, uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores cearenses e que vem sendo estudada há anos para o tratamento de queimaduras e feridas de difícil cicatrização.
O investimento inicial previsto é de R$ 52 milhões. O projeto é conduzido pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical, e representa a passagem da tecnologia desenvolvida dentro da universidade para uma produção industrial em grande escala.
Da pele que seria descartada a um curativo de alta tecnologia
A ideia chama atenção justamente pela origem da matéria-prima. A pele da tilápia, que muitas vezes é descartada durante o processamento do pescado, passa por uma série de etapas de preparação, esterilização e liofilização até se transformar em um biomaterial destinado ao uso médico.
A tecnologia desenvolvida pela UFC prevê um curativo oclusivo e temporário, capaz de permanecer sobre a área lesionada e ajudar a proteger a ferida. A pesquisa começou em 2015 e envolveu pesquisadores como Edmar Maciel Lima Júnior e Marcelo José Borges de Miranda, em parceria com equipes da universidade e do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM).
A UFC explica que existem versões do biomaterial processadas com diferentes tecnologias, incluindo a forma liofilizada, que permite conservar o material em temperatura ambiente. Antes da utilização, o curativo pode ser reidratado com solução fisiológica.
Tecnologia pode reduzir dor e trocas de curativos
Um dos principais diferenciais estudados está na possibilidade de diminuir a necessidade de trocas frequentes do curativo, procedimento que pode ser doloroso para pacientes com queimaduras.
Estudos realizados no Ceará apontaram resultados promissores com a utilização da pele de tilápia, incluindo boa aderência à área lesionada, preservação da umidade e proteção contra contaminação externa. A pesquisa também apontou potencial para reduzir dor, perda de líquidos e a frequência de procedimentos durante o tratamento.
A tecnologia foi inicialmente desenvolvida com foco em queimaduras, mas o biomaterial também vem sendo estudado para outras aplicações médicas e veterinárias. A própria UFC destaca o potencial de utilização em diferentes tipos de feridas e procedimentos.
Produção vai saltar de centenas para milhares de peles por dia
Atualmente, o laboratório ligado à UFC possui capacidade de processamento muito menor, voltada principalmente para pesquisas e atendimentos específicos.
Com a nova fábrica, a escala será completamente diferente. A previsão divulgada para o projeto é alcançar 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de funcionamento comercial, com possibilidade de chegar a 12 mil peles processadas diariamente em uma segunda etapa de expansão.
A mudança pode colocar o Ceará em uma posição estratégica no desenvolvimento de uma cadeia de biotecnologia ligada à piscicultura.
Jaguaribara foi escolhida pela força da produção de tilápia
A escolha de Jaguaribara não aconteceu por acaso. O município está localizado próximo ao Açude Castanhão, uma das principais regiões produtoras de tilápia do Ceará.
A proximidade com os produtores facilita o aproveitamento da pele que seria descartada e cria uma conexão direta entre a piscicultura e a indústria de produtos para a saúde.
Na prática, o projeto transforma um resíduo da cadeia do pescado em matéria-prima para um produto de alto valor agregado, criando uma espécie de economia circular.
Fábrica deve gerar empregos e movimentar a economia
Além do impacto na área da saúde, a implantação da unidade deve produzir efeitos econômicos para Jaguaribara e para o Vale do Jaguaribe.
A previsão é de aproximadamente 200 empregos diretos, além da movimentação de fornecedores, produtores de tilápia, profissionais especializados e empresas ligadas à cadeia de produção. Também estão previstos programas de capacitação técnica em parceria com instituições de ensino.
Uma pesquisa que nasceu no Ceará e pode ganhar o mundo
A história dessa tecnologia começou há mais de uma década dentro do ambiente acadêmico cearense. Em 2015, pesquisadores da UFC iniciaram uma nova etapa dos estudos que buscavam transformar a pele da tilápia em um biomaterial para utilização médica.
Ao longo dos anos, a pesquisa avançou para estudos clínicos, desenvolvimento de processos de esterilização, criação de banco de pele animal e, posteriormente, transferência da tecnologia para empresas interessadas em sua produção industrial.
Em novembro de 2025, a UFC assinou contrato com empresas do Consórcio Biotec para o licenciamento da tecnologia de obtenção da pele de tilápia liofilizada, autorizando o desenvolvimento, a produção e a exploração comercial do curativo biológico para humanos e animais.
Agora, a construção da fábrica representa um dos passos mais importantes dessa trajetória: levar uma descoberta desenvolvida no Ceará para uma escala capaz de atender hospitais e, futuramente, mercados internacionais.
Potencial para o SUS
Um dos grandes objetivos do projeto é contribuir para ampliar o acesso a uma alternativa de tratamento para pacientes queimados.
Segundo informações divulgadas sobre a iniciativa, a tecnologia pode representar uma redução significativa dos custos associados ao tratamento convencional, especialmente pela possibilidade de diminuir a quantidade de trocas de curativos e alguns procedimentos hospitalares. Estimativas apresentadas pelos responsáveis pelo projeto apontam potencial de redução de até 52% nos custos totais do tratamento de queimaduras.
A produção em escala também poderá facilitar a distribuição do material para diferentes regiões, inclusive locais que enfrentam dificuldades para armazenar produtos que dependem de refrigeração.
Ceará no mapa mundial da inovação
Mais do que uma nova fábrica, o projeto simboliza a transformação de uma pesquisa científica produzida no Ceará em um produto com potencial de impacto nacional e internacional.
O que começou com a investigação de pesquisadores sobre uma pele de peixe que seria descartada pode agora se transformar em uma cadeia industrial envolvendo ciência, saúde, piscicultura, tecnologia, geração de empregos e economia circular.
E Jaguaribara passa a ocupar um lugar de destaque nessa história: é no interior do Ceará que está sendo construída a estrutura para levar ao mundo uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores cearenses.
Da pele da tilápia ao tratamento de queimaduras, o Ceará transforma um resíduo em inovação médica — e coloca uma tecnologia criada no Estado em escala industrial inédita.
Foto: divulgação