Foi jugada uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), ações que fazem parte do controle de constitucionalidade através Supremo Tribunal Federal, de número 131. Esta ADPF definiu que o exame de refração, a prescrição de lentes para corrigir problemas visuais é um ato privativo dos Médicos Oftalmologistas. O julgamento aconteceu entre os dias 19 a 26 de junho.
O exame faz parte de um conjunto de avaliações como: medida da pressão ocular, teste de motilidade ocular, biomicroscopia com avaliação da superfície ocular e segmentar do globo, exame de fundo de olho e teste cromático. Em conjunto, eles são fundamentais para identificar doenças, sejam elas no próprio olho ou de natureza sistêmica com manifestações oculares.
Cabe assim, ao Oftalmologista, a possibilidade de diagnosticar, tratar ou auxiliar o acompanhamento junto com as demais especialidades Médicas!
“Seguindo o entendimento e julgamento do STF e, sobre tudo, o juramento e proposito que nos faz Médicos, muitos estão sendo e serão os desafios gerados em decorrência da Pandemia e enfrentados por nós, Oftalmologistas. Nas diversas áreas de atuação temos peculiaridades. As dificuldades a serem enfrentadas podem ser oriundas da própria natureza da doença, outras da inoperância sistema de saúde, algumas geradas pela pandemia em questão e muitas secundarias ao retardo no diagnóstico e perda do acompanhamento correto”, afirma George Carneiro, Presidente da Sociedade Cearense de Oftalmologia.
Deste modo, os impactos do isolamento social, em relação a saúde ocular e sobre tudo em nível de saúde publica, vários são os aspectos a serem abordados.
Algumas doenças como o Glaucoma, que necessitam de um acompanhamento periódico e do uso ininterrupto de medicações, merecem destaque!
De acordo com Breno Holanda, Médico responsável pelo serviço de glaucoma no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), a volta ao atendimento vai ser gradual e com prioridade a casos mais graves, como pacientes com indicação cirúrgica prévia ou risco de cegueira iminente.
O Médico alerta ainda o fato que a distribuição de medicamentos (colírios), pelo SUS, não pode, de maneira nenhuma, ser interrompida, pois o controle da pressão intraocular (PIO) está intimamente relacionada a estabilização da doença.
Já no Hospital Walter Cantidi, Hissa Tavares, Médica responsável pelo departamento, alerta que a rotina de atendimento não será como antes. “Para evitar aglomerações, o serviço prevê um retorno gradual iniciando com 30% da demanda anterior à pandemia, com horário marcado, além de todos os cuidados de higiene, equipamentos de proteção individual, controle ambiental e treinamento continuo da equipe”, afirma Dra. Hissa Tavares.
Outro caso, especialmente afetado no período é a situação do Banco de Olhos e das doenças corneanas. Afeta o SUS, a rede particular e credenciada. As doações de órgão caíram drasticamente, tanto por diminuição do numero de morte por trauma crânio encefálico, como por dificuldade maior de acesso às famílias de potenciais doadores. Segundo Marilia Araújo, Médica do banco de olhos, o HGF não suspendeu em nenhum momento as atividades, apenas adequou o setor com normas mais rígidas seguindo as orientações de protocolos internacionais para triagem de doadores de tecidos oculares, mesmo assim o Ceará que apresentava fila Zero encontra-se com 69 pacientes em espera na fila de espera para transplante de córnea.
Outro ponto de alerta e preocupação é a diminuição brusca do fluxo de pacientes nas unidades de referencia em retina e vítreo. Isso trás prejuízo significativo ao tratamento de doenças retinianas crônicas como Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) úmida e Edema Macular Diabético (EMD). De acordo com Socorro Lucena, Médica Retinóloga, a interrupção do tratamento, mesmo que temporária, impacta diretamente no controle dessas doenças e pode implicar em um piora dos caso e até mesmo levar à cegueira. Estudo recente publicado pela Academia Americana de Oftalmologia demonstra que 41% dos paciente de DMRI que suspenderam as injeções intraoculares com antiangiogênicos apresentaram recidiva da lesão ainda no primeiro ano. Essa perda implica em não conseguir os mesmos resultados visuais obtidos no inicio do tratamento.
Quando o assunto é a assistência em hospitais públicos a situação é ainda pior. Muitos tiveram que direcionar o seu atendimento aos pacientes com COVID. Felipe Carvalho, Médico retinólogo do HGF, afirma que antes da pademia, eram atendidos cerca de 30 pacientes com a forma grave de retinopatia e com indicação imediata de alguma forma de tratamento: cirurgia vitreoretiniana, fotocoagulação a laser e injeções intravitreas. Antes da pandemia já existia uma demanda reprimida importante para esse tipo de tratamento e somado ao tempo aproximado de 3 messes, sem o perfeito funcionamento do setor, estima-se que 250 pacientes seguem sem diagnostico e, no mínimo, 30 cirurgias e 120 fotocoagulações não foram realizadas, isso considerando apenas o HGF e a retinopatia diabética.
Em clinicas particulares é crescente a necessidade e procura por cuidados oftalmológicos neste período de retomada das atividades. Ivana Carneiro, Oftalmologista que lida diretamente com adaptação de lentes de contato, percebe que apesar dos critérios de manuseio, higienização e tempo de substituição das lentes serem os mesmos, o tempo de exposição às mídias digitais e o trabalho em home office geram danos a superfície ocular e uma infinidade de sintomas que vão de desconforto ocular a visão borrada. “Cuidados preventivos como uso de um lubrificante ocular adequado e intervalos durante as atividades mais longas são recomendados. Em qualquer sinal de alerta o oftalmologista deve ser procurado”, explica a Médica Ivana Carneiro.
Por outro lado, os Médicos acreditam que a população está vencendo o COVID. “Que esse período nos dê a esperança de dias melhores para saúde de uma forma geral e para saúde ocular no sistema publico. Se esse mesmo esforço for realizado em aquisição de equipamentos, diagnóstico, em tratamentos cirúrgicos, na qualificação profissional e na inclusão do oftalmologista na atenção básica a saúde, tenho a certeza de uma população realmente bem assistida”, afirma George Carneiro, Presidente da Sociedade Cearense de Oftalmologia.
Foto: divulgação