As cenas de aglomerações constatadas no último fim de semana, principalmente nas praias da Capital, mesmo antes da validação do último decreto do Governo do Estado que relaxou as medidas de isolamento social, causou preocupação ao Governo e às autoridades de saúde, diante da possibilidade de retrocesso da reabertura econômica e comportamental, caso o número de pessoas acometidas por Covid-19 volte a crescer em Fortaleza.
O governador Camilo Santana deixou bem clara sua insatisfação nas redes sociais com o que viu: “são injustificáveis e preocupantes as cenas de aglomeração em alguns locais, pessoas sem máscara e a informação de festas particulares ocorrendo em casas e condomínios. A pandemia não acabou! A situação ainda é grave! Muita gente continua se contaminando e morrendo. Nossos hospitais ainda estão sob pressão. Temos buscado a retomada gradual das atividades, porque as pessoas precisam trabalhar pelo sustento mas, se não houver a colaboração de todos, os números poderão voltar a subir, e terá que haver retrocesso nessa retomada, tudo o que menos queremos”, disse.
Camilo acrescentou, ainda, que compreende que todos estão cansados, querendo voltar a vida normal, mas entende que ainda não é o momento de normalidade e que isso só começará a acontecer quando toda a população estiver imunizada. Mas qual a razão para, mesmo diante do perigo iminente que a Covid-19 representa, as pessoas preferirem continuar descumprindo regras mesmo que coloque a sua vida e das outras pessoas em risco?
Para o professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), João Ilo Coelho Barbosa, doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), nos casos de sanções e privações de liberdade, como as ocasionadas pela pandemia, que envolvem comportamentos não só de um indivíduo, mas de um grupo de pessoas, é difícil encontrar uma causa única, ou culpados, mas sim um conjunto de fatores. “São fatores mais imediatos, pontuais e fatores que são mais históricos,” pontua.
Ele cita a questão da falta de educação. Entende que não há aprendizagem no que diz respeito às leis e não há um conhecimento do cuidado com os outros. Além disso, observa que existe a questão das vantagens individuais, pois as pessoas se preocupam mais com a própria satisfação pessoal e não se preocupam com o grupo. “Na Europa por exemplo, isso é diferente, em alguns países. Outra questão é a da impunidade. Existe quase uma certeza de impunidade quando você quebra regras no país,” comenta.
O professor ressalta ainda outros aspectos, como por exemplo, a privação da ocupação dos espaços públicos por um período longo, que leva as pessoas, no primeiro momento de liberação, a querer aproveitar o máximo e de forma imediata a liberdade. “Se olharmos bem para aquelas imagens das pessoas na praia, por exemplo, ficamos chocados pois não vimos ninguém nem com máscara no pescoço. Realmente houve descuido! Mas isso não vem do nada, é resultado de um conjunto de fatores, quais sejam: o aspecto da educação que não favorece o cuidado com o outro; a certeza da impunidade e a privação que leva a pessoa a cometer excessos na primeira liberação”, avalia.
Pulsão da Morte
Para a psicóloga clínica Margarida Giffoni, muitas pessoas se aventuram em determinadas situações, como escalar montanhas ou praticar esportes radicais, como corridas de carros ou motos, mesmo sabendo de princípio dos riscos que correm, por sentirem prazer em estar arriscando a vida, “isso pode ser explicado por meio da Teoria Freudiana que expõe a Pulsão de Morte que está presente no inconsciente humano. Trata-se de processos não conscientes que fazem com que muitos arrisquem a própria vida. Outro exemplo; as pessoas sabem dos riscos de beber álcool, de fumar ou comer certos alimentos e mesmo assim continuam consumindo”, argumenta.
Ela observa que no caso em questão da Covid, não é diferente. “Mesmo sabendo do grande número de casos e de mortes, as pessoas não aceitam sacrifícios e se arriscam a cada dia, mesmo sabendo dos perigos. Há também as informações que chegam através da Mídia, não precisas, que confundem as pessoas que ficam sem saber onde está a verdade e que caminho seguir. Temos ainda muitos outros aspectos mais secundários, como não aceitar proibições, por exemplo. Muitas pessoas rejeitam a ideia da proibição e questionam se é certo ou errado. Entra aqui a questão política. Se há uma abertura para se não cumprir uma regra, então fica mais fácil as pessoas agirem assim. As informações são confusas e muitas vezes impedem um raciocínio lógico”, conclui.
Jovens
A psicóloga clínica Tarciane Ferreira observa que a maioria das pessoas que não respeitam o isolamento são os jovens entre 16 e 30 anos. “O que podemos enxergar também, é a questão da fiscalização que ocorre em alguns pontos e em outros não, por isso essas aglomerações passam despercebidas. O trabalho de conscientizar e educar sobre algo não é tão fácil. E o ser humano tem o hábito e cultura do pensamento de que nada vai acontecer com ele, mas o vírus veio pra mostrar que não escolhe classe social, cor ou outra característica. E só quando se passa pela situação é que tenta conscientizar o seu próximo e assim sucessivamente”, argumenta.
Pontua que por mais que hajam propagandas, notícias nos jornais alertando sobre a necessidade do lockdown e das medidas de prevenção, existem os fatores sociais que concorrem para que o isolamento social não tenha o efeito desejado. Ela dá exemplo do trabalhador que tem a obrigação de enfrentar o ônibus lotado, que não tem como ser higienizado a todo momento. “Eles se arriscam a sair todos os dias de casa para manter-se no emprego, mas nos fins de semana não podem ir à praia ou em outro lugar ao ar livre, porque correm o risco de serem infectados ou se for assintomático, transmitir para alguém,” frisa.
Tarciane comenta que também há notícias de festas clandestinas onde a fiscalização não chega. “Por isso, defendo que a fiscalização deve existir, mas para todos e em todos os pontos. E os responsáveis pela saúde sanitária e coletiva devem sim abusar das mídias sociais para que esse percentual da população seja atingido de forma positiva na questão do cumprimento do isolamento. A gente também não pode deixar de falar que o decreto, na visão da população brasileira, está deixando muitos desempregados, os benefícios sociais até acontecem, mas não chegam às famílias mais carentes e isso gera uma insatisfação, o sentimento é de desamparo e de injustiça”, detalha.
No final, ela avalia que com certeza ninguém sairá ileso dessa guerra contra o vírus. Opina que o que contribui muito com a desobediência é a falta de sincronia dos governos, possibilitando o aparecimento de conflitos que contribuem com descumprimento das normas, o não uso do bom senso e a falta de empatia com a dor do outro.
Fonte: CMFor por Marcelo Raulino – Foto: Thiago Gadelha/SVM