Público A Entrevista – Padre Eugênio Pacelli – Conheça mais sobre sua história e carisma

Compartilhe Essa notícia

Ele não se lembra quando começou o despertar da sua vocação. Talvez, desde o berço. Segundo ele, sua mãe, Celina, sempre o alimentou com o leite materno e com o leite da fé. Aos oito anos, a brincadeira preferida era celebrar missas em sua cidade natal, Ibiapina. Além disso, a família extremamente religiosa foi inspiração para o chamado contundente.

Devoto de Nossa Senhora, torcedor do Fortaleza, muito dedicado aos grupos de casais que coordena e às atividades pastorais do Colégio Santo Inácio, Eugênio Correia Aguiar, ou Eugênio Pacelli, como é mais conhecido, acredita que as celebrações da Eucaristia devem ser sempre muito bem preparadas, pois uma celebração bem cuidada é momento oportuno de evangelizar. Sob essa ótica, o sacerdote é cuidadoso e está sempre munido de suas anotações, que servem de roteiro para suas homilias inspiradoras e tocantes. Além disso, se envolve com cada detalhe da preparação do espaço sagrado, da toalha que cobre a mesa da Eucaristia à iluminação. Faz questão de dar um ar especial às missas que preside. O tom da voz firme e tranquila faz com que as atenções se voltem para escutá-lo atentamente.

Padre Eugênio tem liderança e, como todo líder, possui o dom da oratória. Sabe escolher as palavras e intenções certas no momento de pregar. Os fiéis lotam a quadra do Colégio Santo Inácio ou qualquer outro espaço onde ele celebre.  Jesuíta dedicado à sua missão e estudioso, acaba de receber o título de Mestre em Teologia, com a dissertação “O sofrimento de Deus na Cruz do Filho”, segundo o teólogo luterano Jürgen Moltmann. Foram meses debruçado sobre obras e anotações, estudando incansavelmente, e sendo “multitarefas”, já que a vida paralela de muitos afazeres seguia, mesmo com a pesada rotina que a academia exige.

De sorriso fácil e escondendo a timidez, vira um gigante quando abre a boca para falar de seu maior ídolo: Jesus Cristo.  A jornalista Patrícia Moreira conversou com o padre sobre sua missão na Igreja, seu trabalho à frente da coordenação espiritual do Colégio Santo Inácio, os grupos de casais e alguns temas inquietantes.

Em qual momento da sua vida o senhor decidiu ser padre?

– Eu costumo afirmar que a minha vocação vem junto com o leite materno. Além do alimento para sustentar o corpo, sempre fui alimentado com o leite da fé, que alimentava a alma. Aos oito anos já manifestava o desejo de seguir a Jesus, as coisas do alto já me fascinavam, “brincava” de ser padre e congregava amigos para celebrar a missa. Uma mediação especial de Deus em minha vida foi da minha família. Minha vocação foi despertada no seio da minha família. Deus me conquistou na minha infância, no espaço sagrado da minha família, minha primeira Igreja. Minha mãe vem de uma família extremamente religiosa a as práticas da igreja católica permearam minha vida. Desde criança eu sentia fortemente a presença de Deus me guiando á vocação que abracei.

Como foi o início de seus estudos para se tornar padre?

– Aos 12 anos cheguei em Fortaleza para estudar no Colégio Santo Inácio. Já trazia no meu coração esse desejo da vida religiosa, a convivência com os padres na escola fortaleceu esse sentimento. Após concluir o ensino médio, pedi para ingressar na Companhia de Jesus e ser jesuíta. Após os seis meses de experiência em uma comunidade carente da cidade (em Mondubim) desenvolvendo atividades missionários com jovens, recebi a carta autorizando minha entrada na Ordem. Fui à Salvador fazer o noviciado, ocasião na qual trabalhei com a Ir. Dulce, em uma experiência de hospital. Depois disso, fiz meus primeiros votos e iniciei os preparativos para a formação em Filosofia e Teologia, em João Pessoa, durante dois anos. A parada seguinte foi em Belo Horizonte, onde segui os estudos. Retornei à Fortaleza, onde fiquei dois anos para trabalhar na pastoral do Colégio Santo Inácio e cursei Administração, na Unifor e voltou a Belo Horizonte para concluir Teologia (04 anos) e receber o sacramento da Ordem.

O senhor identifica que a educação recebida por seus pais influenciou positivamente para que abraçasse a vocação sacerdotal?

– Sim. A primeira igreja é a família. É na família onde a gente cresce, amadurece e se fortalece na fé. Foi no âmbito familiar que despertei a vocação religiosa e a prática da solidariedade.

Foi muito criticado quando entrou para a Igreja?

– Nunca! Fui totalmente apoiado por familiares e amigos. A medida em que fui crescendo na vocação, Deus foi generoso e colocou pessoas que me apoiaram, incentivaram e foram exemplo para continuar e ratificar o desejo de me colocar a serviço Dele e dos outros.

O senhor sente falta de algo anterior à vida dedicada ao sacerdócio?

– Não sinto. Como comentei anteriormente, a vocação apareceu cedo e eu me dediquei integralmente à minha vocação. De forma que, não sinto falta de absolutamente nada. Nasci para ser padre.

A sua rotina é muito intensa. Isso não afeta a sua saúde?

– O que prejudica a minha saúde é não ter o que fazer. Quero estar a serviço sempre. Não posso dizer não à minha missão, ao chamado, aos apelos e gostaria de ser mais disponível para atender as pessoas que me procuram. A sociedade está muito carente. Precisa de ânimo, de paz, de conforto e eu fico triste porque não posso dizer sempre sim e levar essa palavra a todos que me procuram como sacerdote para escutar uma palavra de conforto. Isso me incomoda muito. Eu, sinceramente, afirmo: trabalhar, servir nunca prejudicou minha saúde. Prejudica quando fico parado, sem ter o que fazer.

O senhor é preocupado com a sua saúde?

– Eu cuido da minha saúde. Faço exames periódicos e está tudo as mil maravilhas, graças a Deus!

Sabemos que o senhor é conselheiro espiritual de alguns movimentos em Fortaleza. É o caso do grupo Amare e do grupo Amores Laetitia. O que significa cada um desses grupos para o senhor?

– O Amare nasce com desejo muito forte de me colocar a serviço de jovens casais entre 0 e 5 anos de união, período crucial do relacionamento conjugal. Lendo a Encíclica do Papa ‘Amoris laetitia”, ele comenta que há um vácuo na Igreja Católica no acompanhamento e na presença da igreja na vida dos jovens casais. Essas palavras dele calaram muito fortemente em meu coração e a partir deste momento, decidi congregar casais que quisessem continuar após casados, o aprofundamento na fé. Nesses dois anos de movimento é impressionante perceber como a Graça de Deus trabalha na vida desses casais e a Fé torna-se um elo forte de união, paz e força. Eles renovam no movimento a certeza de quem não caminham sozinhos. Eu sempre digo para eles que casamento sem problema é um problema sério. Não queremos casais perfeitos, porque não existe perfeição no matrimônio. Queremos casais que em suas fragilidades se levantam, tomam consciência dela e numa dimensão de diálogo, de perdão e de reconstrução se ponha a caminho em busca desse sonho tão bonito que Deus tem para cada um deles. A realização, a felicidade e a paz no seu matrimônio. E o Amoris Laetitia também surge de outro apelo do Papa Francisco, que a Igreja deve acolher casais divorciados em segunda união. São casais machucados, desejosos de participação na igreja e sempre tenho a imagem desse Deus que não exclui ninguém no seu abraço de Pai, que tem o coração e braços sempre abertos para acolher, na dimensão da escuta, do acolhimento na vida da igreja porque são filhos e um Pai jamais abandona, exclui ou discrimina um filho.

Qual o conselho que o senhor dá para as pessoas que pensam em se casar?

– Casamento é uma decisão muito importante. É fundamental ter tempo de discernimento, de diálogo, de escuta, de acompanhamento. Casar é um passo muito sério. Segundo os canonistas, 80% dos casamentos realizados na Igreja têm elemento de nulidade. Sabe por que? Porque as pessoas não sabem, não têm consciência daquilo que vão celebrar… do compromisso que estão assumindo. São Tomaz de Aquino afirma que o sacramento que é celebrado sem fé não tem sentido, é vazio. Então, falta a consciência da importância do sacramento. Hoje, as pessoas pensam muito mais na festa, no evento. Casamento não tem apenas a dimensão social, mas também celebrativa e principalmente sacramental.

Há questões na igreja Católica que sempre existiram, mas que agora, diante da nova realidade da sociedade brasileira, têm causado constrangimento pelo sentimento de discriminação e consequente distanciamento do fiel à sua igreja. Como é o caso da proibição da comunhão para pessoas divorciadas e que contrariam novo casamento civil. Segundo a Bíblia, Cristo jamais fez acepção de pessoas, muito menos em relação a divisão de pão com quem queria ter parte com ele, apesar dos defeitos de cada um. O papa Francisco já mostrou que está atento a esta realidade. O que o senhor pensa a este respeito?

– O Papa aconselha a termos discernimento em cada situação. Cada história é única. Não se pode generalizar. Há casais que realmente vivenciam essa dimensão na busca da fé. O casal em segunda união é convidado a se aproximar da Igreja e sentir a presença de Deus na escuta da palavra, na comunhão espiritual, entre outras atividades da Igreja. Não devemos reduzir a participação do casal apenas à Eucaristia. Não adianta querer receber o Senhor na Eucaristia, se não reconhece a presença Dele no dia a dia do relacionamento, com suas alegrias e tristezas. A verdadeira comunhão com Cristo se realiza primeiro na comunhão entre si. Hoje, a Igreja está buscando meios, modos de se abrir para receber cada vez mais casais nessa situação.

Nota-se também que nos últimos anos o Colégio Santo Inácio sofreu várias mudanças positivas e relevantes. A que o senhor atribui isso?

– Todo o crescimento e os resultado é fruto de uma equipe comprometida, que acreditou na proposta do colégio e arregaça as mangas e sonha alto. O Colégio Santo Inácio tem um papel muito importante na educação do Ceará. Fizemos uma história linda e não poderíamos deixar que essa história acabasse ou se fragilizasse. O Colégio Santo Inácio quer se perpetuar no coração de tantas pessoas que passaram por aqui como uma lembrança boa, transmitindo confiança e amor por uma obra que tem papel fundamental na educação de crianças e jovens na busca do Amar e Servir. Temos o compromisso de entregar às famílias, à sociedade seres humanos formados em sua integralidade. Acreditamos que só assim, teremos uma sociedade mais humana, fraterna e mais justa. A Companhia de Jesus acreditou na revitalização, investiu em infraestrutura, nas pessoas, no projeto pedagógico e estamos trabalhando muito para isso. Estamos no caminho certo.

O Colégio Santo Inácio realiza a Noite da Misericórdia, em plena segunda-feira a noite, e que atrai muitas pessoas. Como surgiu a ideia da missa da misericórdia?

– O Papa Bento dizia que a Misericórdia vai salvar o mundo, contudo a Misericórdia salva também relacionamentos, pessoas, situações. Quanto mais violência presenciamos, mais necessidade temos de Misericórdia. Isso é um sintoma. Vivemos em uma cidade muito violenta e esse contexto nos ajuda a despertar no coração das pessoas o sonho que todos temos de vivermos em paz, harmonia e como irmãos. A Noite da Misericórdia nos mostra o quanto sentimos o desejo de nos aproximarmos desse Deus que é pura Misericórdia. Misericórdia significa colocar o coração na miséria do outro. Este momento é dedicado a nos aproximarmos de Deus e de percebermos que Ele não se cansa de nos perdoar, de aproximar-se de nossas fragilidades, e de oferecer-se como cura, como caminho… É um momento muito significativo porque as pessoas estão carentes de amor, paz e perdão.

Fale sobre sua missão à frente do Colégio Santo Inácio:

Minha missão à frente do colégio é ser animador pastoral. Ser aquele que cria, acompanha e promove atividades que aproximam e despertam no coração de nossos alunos o desejo de amar, conhecer e conviver com Deus. Temos uma equipe muito competente e comprometida que desenvolve atividades (retiros, celebrações, experiências de solidariedade), enfim alimentam a fé dos nossos alunos, em parceria com as famílias, para que eles sigam sua caminhada e sejam agente de transformador social.

Aos domingos também tem a missa das crianças pela manhã e a missa a noite que são bem frequentadas. Fale um pouco dessas 02 missas e se o senhor planeja ampliar o número de missas durante a semana no Colégio Santo Inácio?

– A missa das crianças surgiu do desejo de um grupo de pais de oferecer uma celebração que contribuísse para o crescimento espiritual das crianças. Então, nos reunimos e concebemos um modelo de celebração que falasse alto no coração das crianças, mais lúdica, mais alegre…enfim, o rosto de nossas crianças. É bonito perceber que hoje as crianças é que pedem aos pais para irem à celebração. Aqui, elas encontram um ambiente descontraído, alegria e os braços de Deus abertos para acolher aquelas que são suas preferidas.  A missa da comunidade existe há mais de 40 anos, não foi iniciativa minha. Os padres que me precederam já usavam esse espaço de evangelização aos domingos, mas levamos esse momento adiante e transferimos para a quadra, devido à grande quantidade de gente que passou a frequentar. Eu costumo dizer que a celebração tem que ser muito bem preparada. Levamos muito a sério o que, muitas vezes, é o único momento que a pessoa terá com Deus durante a semana. Nós temos esse cuidado na preparação. Não se celebra a Eucaristia de qualquer jeito. Uma celebração bem cuidada é momento propício de evangelização. Temos equipe de liturgia e de ministros que se revezam para colaborar e para fazer esse momento único e especial, e as pessoas percebem muito bem quando há o cuidado em transmitir a palavra de Deus, percebem quando a celebração é desleixada, sem reverência e amor ao sagrado. Fazemos tudo com muito cuidado e amor.

Como é o Padre Eugênio quando não está a serviço da Igreja? O que faz em seus momentos de lazer?

– O padre Eugênio é igual a todo mundo. Gosto de sair, ir à praia, passear, estar com os amigos, com a família, ver um bom filme e partilhar bons momentos. Não sou extraterrestre, sou igual a vocês.

O senhor torce para algum time?

– Fortaleza! Leão! (risos)

O senhor tem conta em algumas redes sociais, de que forma acredita que tais ferramentas ajudam na evangelização? E que experiências positivas tem tido desde que faz uso delas?

– Santo Inácio de Loyola dizia que devemos usar as coisas tanto quanto nos ajude. A internet se encaixa nisso. O Facebook e Instagram têm um alcance enorme e uso como instrumento de Evangelização. Eu sei usar para o bem. Se Jesus ainda estivesse aqui, com certeza, usaria as redes sociais como instrumento de comunicação e para levar a boa notícia do Evangelho e sua mensagem.

O senhor acha que vivemos um momento em que as pessoas se distanciam da Igreja, da religião?

– São duas dimensões: primeiro o esquecimento do sagrado e outro a busca do sagrado. Engraçado, quanto mais uma sociedade se sente insegura, mais as pessoas têm necessidade de buscar esse relacionamento com o sagrado. Veja em Fortaleza, as igrejas estão cada vez mais lotadas de pessoas buscando na fé o suporte e a força para continuarem de pé diante de tantas situações de sofrimento. Então, acredito que hoje vivemos, além de pouco afastamento do sagrado, um despertar maior dele na vida das pessoas.

Como é sua relação com as igrejas evangélicas e demais religiões? 

– Eu, como toda a Igreja, acredito muito no Ecumenismo. As Igrejas não devem ser muros. Igreja que fabrica muro não é a igreja que segue Jesus. Cristo não veio para fazer da sua religião e da sua mensagem muro e, sim ponte. Nós, que participamos das Igrejas, devemos transformá-las em instrumentos de ponte e jamais de separação. Que religião é essa que, ao invés de pregar o Amor, União e Paz, prega divisão e discriminação?! Jesus é o Bom Pastor que veio para nos congregrar, nos unir e não nos dispersar. Esse é o verdadeiro pensamento e desejo da Igreja Católica.

Gostaria que o senhor descrevesse o que acha de cada um desses Papas: João Paulo II, Bento XVI e Francisco?

Eu creio que é o Espírito do Senhor que guia e fortalece a Igreja e inspira pessoas que continuem levando essa Igreja para que o mundo escute dela palavras de força, alimento e de paz.

Interessante que olhando esses três Papas você percebe, claramente, a presença de Jesus Ressuscitado em cada um deles. Cada com suas características, falando ao seu tempo e ao seu modo. João Paulo II era um comunicador, era aquele que levava a mensagem a todo o mundo. Ousado, criativo, animado. Seu longo papado marcou uma geração de pessoas e também a Igreja. Bento XVI foi um dos Papas mais inteligentes que a Igreja já possuiu. Um homem da academia, estudioso, que usou seu papado para escrever obras primas da Cristologia. Sábio e humilde, que teve a coragem de renunciar para que a Igreja Católica retomasse seu caminho. Atitude muito bonita e de quem ama profundamente a Igreja. E agora chega o Papa Francisco! Um Pastor com cheiro de Ovelha, que traz em seu coração essa proximidade, uma Igreja para todos, Igreja de portas abertas, acolhedora, Igreja que se preocupa com o diálogo com as outras religiões, que ousa, que tem consciência de seus pecados, mas também que a força e a Misericórdia de Deus estão além de nossos pecados, das nossas fraquezas. Uma maravilha de Deus!

O papa Francisco declarou que “Se uma pessoa é gay e busca Deus”, ele não poderia julgá-la. Qual sua opinião sobre a aproximação dos homossexuais e famílias formadas por casais gays que frequentam a Igreja?

– A igreja é sempre mãe. O que importa é nossa capacidade de amar.

O senhor aprova as mudanças que a Igreja Católica tem feito nos últimos anos?

– Certamente. A Igreja tem que caminhar e responder às necessidades de seu tempo. A Igreja não é museu, onde se fica preso às coisas do passado. A Igreja de Jesus está em constante renovação, e vendo sinais do tempo, procura se renovar e responder às inquietações de seu rebanho porque acredita no Jesus Ressuscitado. O Espírito de Jesus é que nos faz ousar, caminhar, criar…ir além de nossas comodidades e paradas.

O que mais lhe encanta na Igreja Católica?

– Tê-la como mãe que me alimenta na fé, através do sacramento. Uma Mãe santa e pecadora. Santa porque nasceu do coração, da intuição, do desejo de Jesus e pecadora porque é formada por mim e por vocês. Encanta-me a Igreja estar sempre de braços abertos, instrumento de me fazer cada dia melhor do que eu possa ser.

O que o senhor sente na hora que está celebrando uma missa, casamento e batizado? E qual o pior momento de celebração para um Padre? Se é que existe…

– Não existe pior momento. Primeiro, tenho a consciência de que estou entrando em um espaço sagrado, cumprindo a missão muito importante de ser ponte entre Deus e a comunidade, de que o Bom Pastor nos congregou diante do altar e somos todos irmãos, nos fortalecendo na fé e sonhando com um mundo mais fraterno e justo. O pior momento é quando acaba.

O senhor tem algum santo de devoção?

– Nossa Senhora. Maria sempre ocupou um lugar muito especial em minha vida. Seja sacerdotal, seja na minha vida de fé e através dela cheguei a Jesus. Tenho grande alegria de falar dela para que as pessoas sintam, também, através dela a proximidade de seu Filho.

O senhor tem algum ídolo?

– Jesus Cristo!

O senhor recomenda alguma oração diária em especial?

– Recomendo a oração do Espírito Santo, pois é uma oração poderosa, que nos ajuda a discernir nossas opções, nos fortalece. Peçamos sempre ao Espírito Santo a força para discernir bem, viver bem e conviver bem.

Já pensou em desistir do sacerdócio alguma vez?

– Nunca

Várias pessoas confiam em Deus e tem depressão, síndrome do pânico, e já vimos isso acontecendo inclusive com alguns padres. O que o senhor acha dessas doenças?

– Ninguém está imune à depressão, à angústia, à síndrome do pânico. Depressão não é falta de fé. Na depressão Deus se faz mais próximo da gente, ele percebe nossas fragilidades e se aproxima. Temos que usar de todos os meios que a medicina nos dá para lutarmos contra essa doença, que dizem ser o mal do século, que nos afasta de nós mesmo e da convivência.  A depressão atinge a todos independente de sexo, cor, raça, posição social ou crença religiosa.

O senhor tem momentos de tristeza? 

– Sim. Todos temos o direito de nos entristecer vez por outra, mas não temos o direito de passar isso adiante. Deus é sempre maior que nossas tristezas, mesmo na escuridão, mesmo na noite escura… Tudo passa. A certeza do amor Dele permanece. A tristeza sempre será passageira. Eu gosto muito de uma frase de São Tomaz de Aquino, que diz que quem alimenta a tristeza abre espaço para o Espírito do mal. O espírito do mal alimenta a tristeza, nos paralisa de agir e de ousar.

O senhor já teve alguma experiência pessoal difícil em sua vida? Como o senhor lidou com isso?

– Eu já senti na minha vida de padre as ausências de Deus. Já fiz meus questionamentos em relação a Deus. Somos muito parecidos nesse aspecto quando sofremos ou vemos alguém querido sofrer, perguntamos onde Deus está. O Vaticano Segundo diz que diante do sofrimento do justo é que surgem os questionamentos do ateu e o indiferentismo religioso. Então, são situações que nos colocam diante do limite do sofrimento humano. E naquela situação limite a gente se pergunta onde Deus está e por que Ele permite tal coisa. Eu tenho experimentado em situações dessas, ao invés de me afastar na fé, me fortalecer, pois uma fé que não se questiona é uma fé que te aliena. É perguntando que a gente cresce na fé, encontra a resposta para tantas questões que não sabemos explicar.

Eu lembro de uma experiência muito difícil e muito confortadora na fé que posso relatar. Foi quando minha mãe entrou na fila do transplante após 12 anos de luta, no dia de seu aniversário de 70 anos, Deus nos concedeu a graça especial de que ela fizesse o transplante e se recuperasse plenamente. Foi um momento difícil, de incerteza, no qual Deus, por meio de sua Mãe, trouxe a certeza de sua recuperação.

Muitas pessoas gostariam de ter um momento com o senhor. Para uma conversa, um aconselhamento. O que o senhor tem a dizer para essas pessoas?

– Antes da celebração de domingo, eu sempre reservo um momento para receber algumas pessoas. Minha missão maior é o acompanhamento espiritual dos alunos do Colégio Santo Inácio e dos grupos de casais, mas eu nunca deixo de receber para aconselhamento ou confissão quem me procura.

Qual tem sido a maior alegria e o maior desafio do seu ministério?

– A maior alegria é a certeza de que Deus age no coração de tantas pessoas, é levar o consolo de Deus, a certeza da presença Dele e despertar na construção de uma sociedade melhor, um mundo mais humano e fraterno. O desafio é a constante atualização do Evangelho para cada realidade. Preciso sempre estudar, me preparar muito bem para que o Evangelho seja força e a boa notícia que Jesus se propõe a transmitir a todos.

Quais seus próximos projetos?

– O projeto é colocar os grupos de casais cada dia mais a serviço da dimensão social. Levar conforto, melhorar a vida de tantas crianças e idosos que não tiveram a oportunidade que nós temos, do pão alimento para o corpo e para a alma.

Que mensagem o senhor deixaria para nossos leitores da Público A?

– Deixo como sugestão que procuremos, cada dia mais, promover a cultura da Paz nas famílias, nas nossas escolas, nos nossos relacionamentos, em nossos ambientes de trabalho, na sociedade. O mundo precisa de paz. Sem paz a vida fica muito difícil e a paz começa em mim.

Foto: Nilton Novaes