Em O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir, tece criticamente a história da mulher, seu papel na família e sociedade. Lança luz sobre os fundamentos do casamento que para os homens seria um movimento de expansão, enquanto que para a mulher o rompimento com o passado, a anexação ao universo do esposo. A virgindade um valor moral que outorga aos filhos o selo da legitimidade garantida pelo confinamento às paredes do lar. Em casa, as mulheres, na rua, os homens.
Uma sociedade, portanto, elaborada pelos homens cuja condição feminina foi milimetricamente desenhada. Essa é a grande questão: desenhada e construída, não natural. A política, ironicamente, desde sempre desenhada como representativa. De que forma? Se não representa a pluralidade dos fios que tecem a sociedade, mas os valores e vontades de um só gênero, uma só condição, uma só cepa. Compreendendo, ao longo do tempo, o papel edificado e construído para si, as mulheres começaram e se enxergar não como sexo, mas como gênero e este não tem como ser tomado de maneira naturalizada. A mulher começa a se ver como igual e buscar direitos civis, uma vez que se percebe como gente.
Na recente década de trinta conquista o direito ao voto. Inicia-se um movimento mais intenso de transgressão da dita ordem masculina, uma revolução dos valores tradicionais, o enfrentamento à ética conservadora pelo lugar de fala. A mulher passa a acreditar nela como protagonista das cenas diárias e querer representatividade. Quanto desafio! A mulher na política é o retrato do confronto aos papéis tradicionais. É o abraço à vida pública tão proibida, a exposição de si tão imoral. É o rompimento com a estrutura histórica que a delineou. É o assumir sua fala, sua voz, o que vem de dentro, portanto, a si mesma. É um compromisso consigo que precisa ser diário porque as ameaças são muitas oriundas de uma profunda sub-representação e um abissal déficit democrático. Para que um dia vivamos em uma democracia paritária nossa luta precisa ser uma verdadeira entrega. Daí surge a violência política de gênero como uma maneira de impactar negativamente a participação das mulheres no debate público. É, por si, a perpetuação da vigilância e intimidação para que se cale e obedeça. Mas a mulher grita. Descontrole emocional? Não! É o descontrole do controle histórico que assusta os guardiões do “status quo”. A fala, a voz que vem desafiando papéis por um lugar de igual, que não desafia outra ordem que não apenas a imposição da voz grave masculina. É a fragilidade imposta rechaçada. É o “eu quero”, o “eu posso”.
Natália Rios
Psicóloga, ex Coordenadora de Políticas Para as Mulheres de Fortaleza
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